Uma investigação detalhada da Polícia Civil e do Judiciário desmantelou uma fraude milionária contra o setor de seguros que se tornou um dos episódios mais emblemáticos do mercado securitário nacional.
O caso, iniciado em 2019, envolveu o servidor público baiano Vanderley dos Santos Gomes, que atuava no município de Amélia Rodrigues, no Recôncavo baiano.
Ele simulou ter sido vítima de um violento crime na tentativa de receber 1,5 milhão de reais em indenizações de seguradoras, mas teve o plano frustrado por graves contradições.
Após o trânsito em julgado do processo, o condenado começou a cumprir sua pena em maio de 2026. Na época do ocorrido, Vanderley relatou às autoridades que havia sido alvo de um assalto seguido de sequestro logo após deixar uma Unidade de Pronto Atendimento na cidade de Cruz das Almas.
De acordo com a sua versão inicial, ele teria sido abordado por criminosos armados, colocado à força no interior de um veículo, agredido e abandonado em uma estrada de terra na zona rural, local onde os supostos assaltantes teriam amputado o seu pé esquerdo de forma cruel.
A narrativa, contudo, desmoronou por completo a partir dos achados da equipe de investigação e dos peritos criminais. A cerca de 350 metros do ponto onde o servidor recebeu os primeiros socorros, os policiais localizaram a própria mochila de Vanderley.
Ao vistoriarem o interior do acessório, os agentes encontraram não apenas todos os pertences de valor que o homem alegava terem sido roubados pelos assaltantes, incluindo seu aparelho celular e relógio, mas também o próprio pé que havia sido decepado, guardado dentro do compartimento.
Diante do achado contraditório, o Poder Judiciário reuniu um robusto conjunto probatório que evidenciou o planejamento financeiro e a fraude arquitetada pelo servidor.
Os magistrados destacaram que, apenas seis semanas antes da perda do membro, Vanderley havia contratado simultaneamente quatro apólices de seguro de vida com coberturas vultosas para invalidez permanente.
Além disso, laudos de perícias médicas concluíram que a amputação não apresentava características de golpes violentos cometidos no calor de um assalto, uma vez que o procedimento cirúrgico foi executado de forma limpa.
A Justiça também classificou como irracional a hipótese de sequestradores cometerem uma mutilação dessa magnitude sem qualquer exigência de resgate, somado ao fato de que o servidor demonstrou total incapacidade de descrever o instrumento utilizado na ação, hesitando entre uma foice, um facão ou uma serra.
De acordo com Adriano Scattini, representante da Advocacia Zacarelli, escritório que atuou em defesa das seguradoras envolvidas, a detecção da fraude foi amplamente favorecida pelo sistema integrado de compartilhamento de dados mantido pelas companhias do setor, mecanismo essencial para combater tentativas de estelionato contra o mercado de seguros.
Vanderley dos Santos Gomes foi condenado pelo crime de estelionato tanto em primeira quanto em segunda instância. A sentença fixou a pena em dois anos de reclusão, medida que acabou convertida no cumprimento de 720 horas de prestação de serviços à comunidade, além do pagamento de uma sanção pecuniária estipulada em R$ 7.590.
A equipe de defesa do servidor ainda tentou interpor um recurso especial para remeter o processo ao Superior Tribunal de Justiça, contudo, o Tribunal de Justiça da Bahia barrou a subida do recurso por entender que todas as teses factuais e de mérito já haviam sido integralmente exauridas ao longo do rito processual regular, tornando a condenação definitiva.






